Escalas

Anna senta perto da janela esperando a chuva passar. Mas as gotículas não param de molhar o mundo lá fora. E vários por quês não param de passar por sua cabeça.
Anna acha essa história de meio amor mais complicado que os amores dos clássicos da literatura brasileira. Ela não compreende como alguém poderia ser capaz amar alguém mais ou menos. E existe isso? Amor sempre foi para Anna uma palavra curta mas plena. E essa banalização do sentimento  a deixava aos nervos. Ela pensava consigo mesma que se um dia fosse amar alguém, ela seria cem por cento dedicada. Como ela era aos colecionar personagens de histórias. 
Rápido demais, o mundo gira rápido demais ultimamente. Quando Anna era criança, ela aprendeu que a rotação da Terra fazia com que o planeta girasse ao redor de si mesmo, ocasionando incidência de raio solar hora numa parte do mundo, hora em outra. Dia e noite. Costumava levar 24 horas. Costumava. Mas hoje em dia, as pessoas estão tão desesperadas para suprir seus desejos que as 24 horas, se tornaram 24 minutos, e os sentimentos esvaíram-se. 
E mesmo com tanta discordância Anna sabia que ela mesma era um belo hiato nessa situação toda. Enquanto alguns amavam demais, Anna amava de menos. Ela se deixava crer que todas suas roupas ainda estavam manchadas com vinho, e que nenhuma delas poderiam ser usadas novamente. Era completamente nebuloso o caminho que as dúvidas de Anna a fazia tomar. 
Mas ela pensou, pensar: processo pelo qual a consciência apreende em um conteúdo determinado objeto; refletir, formar, combinar ideias. Meditar, raciocinar. Ela utilizou de todas as definições da palavra pensar para tentar ajeitar as palavras que queria dizer. Mas as ideias confundem e algumas vezes os pensamentos também. Pensamentos escuros, ou claros demais. Calma. 
Da janela, ainda pode se ver a chuva lavando o mundo. Anna se levanta, abre a porta, e caminha para fora. E no meio da chuva poente ela se senta e sente pela primeira vez em meses. As coisas que pareciam permanentes se vão com as gotas da chuva, e ao abrir os olhos, ela enxerga as mais lindas nuances de cinza e ao fundo da paisagem, um arco-iris.

Au revoir 

Nota da autora: Eu crio personagens. E crio com frequência. Anna é um nome fictício, que pode querer dizer muitas coisas, ou não. Sem revelações nessa noite fria de Abril.

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