Na estante: No Escuro


Enquanto escrevo apressadamente apenas sob a luz do notebook, fico repassando na minha mente: "Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis vezes, girei a maçaneta seis vezes, a porta está trancada." Você gosta de uma narrativa viciante? Não. Essa não é a pergunta correta. A pergunta correta é: Quantas vezes você se viu tão envolvido com um livro onde você sentiu toda a ansiedade da vitima? Ansiedade, medo, angústia, aversão, perante todos os fatídicos eventos que ocorreram na vida de Catherine, eu diria que não ter enxergado os sinais enquanto ainda era cedo foi o seu pior erro. Okay, talvez eu esteja falando demais. Ela enxergou alguns sinais sim, e tentou fazer algo sobre isso, mas no final, não tinha volta sabe?

Imagine que você está indo a algum lugar, norte, sul, leste, oeste, não importa. Você está indo. Você sabe que assim que der o primeiro passo naquela direção, estará condenado a caminhar por aquela linha eternamente. Se Catherine tivesse terminado aquele relacionamento destrutivo antes que tudo desmoronasse, ela estaria verificando pela décima vez se a porta de seu apartamento está devidamente trancada. Se Catherine não tivesse terminado aquele relacionamento, ela estaria verificando pela décima vez se a porta de seu apartamento está trancada. Você entende? Lee encontraria sua próxima vítima de qualquer maneira. Lee encontraria Catherine.

Todas as vezes que me perguntam de que tipo de livros eu gosto, eu respondo "De ficção/fantasia". Pois bem, desde que li "No Escuro" minha resposta passou a ser "Mistério, assassinatos e psicopatas". Calma, calma, continuo encantando pela realidade inventada que só um bom livro de fantasia consegue criar. Mas a diferença é inquietante. A verdade é que não estou encontrando livros de fantasia como deveriam ser. Sabe, não basta você colocar alguns animais mitológicos, truques de mágica, alguma terra fictícia e não criar raízes para seu personagem, seja ele homem, mulher, vilão ou anti-herói.

"No Escuro" tem tudo que um romance psicótico deveria ter. O livro caminha entre o passado e o presente com muita naturalidade. No começo eu pensei "Ah não, não acredito que vai ser assim". Mas depois de algumas páginas me peguei adorando o quebra cabeça que a autora criou. Você tem as peças principais do jogo, mas mesmo assim precisa de todas construir uma imagem, certo?

Eu pensava que eu nunca iria achar uma heroína tão boa quanto Katniss Everdeen, mas aqui está, Catherine Bailey é uma das minhas personagens preferidas de todos os tempos. Sua fragilidade e sua coragem e até mesmo seu medo, fez com que, eu, leitora, me sentisse muito próxima a ela. Você vê Catherine cometendo erros, você fica brava com ela, você fica com medo por ela. A autora Elizabeth Haynes conseguiu criar um vinculo de leitor-herói excepcional. E pra que está se perguntando como eu imaginei Catherine, aqui está: Rosamund Pike. (nota mental: quero um filme pra ontem, obrigado) Os personagens secundários são apresentados brevemente, porém são polidos exatamente como devem ser, e são importantes para o desfecho do livro. Lee, o vilão é incrível. Mas não incrível de legal, a palavra incrível aqui se fundamenta no simples fato do vilão ser mau. Ele é mau, e você vai odiá-lo por isso, porém só vai perceber quando Catherine perceber.

Li "No Escuro" em três dias, e se pudesse virar a madrugada lendo, aposto que teria terminado ele em algumas horas. Fico extremamente feliz em colocar "No Escuro" de volta em minha prateleira. Foram 333 páginas de realidade, medo, perseguição e nuances de thriller psicológico. A capa do livro possui partes amarelas, o que dá uma sensação de feixe de luz. Uma garota dançando num quarto escuro, uma cama desarrumada, chaves perdidas nos lençóis.

É engraçado ver como personagens bem criados podem ter tanta influencia sobre você. Existe um ligação entre meus cabelos curtos avermelhados e os cabelos curtos prateados de Catherine. Mas isso é assunto pra outro post. :)

O livro é publicado pela editora Arqueiro, que vem me surpreendendo desde "A Estrada da Noite". Tenho uma politica extremamente firme sobre não comprar livros caros. Eu prefiro pensar que boas histórias podem ser encontradas em livros que estão meio 'escondidos'. Foi assim com "No Escuro" e com "A Estrada da Noite". Obviamente isso varia de pessoa para pessoa, mas há algo sobre a história ser mais importante do que uma capa bonita que me deixa feliz. E já que estavamos em clima de Halloween, porque não ajudar Cathy a verificar se não há ninguém em seu apartamento, nos cômodos... no escuro?

Au revoir

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